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Outubro vermelho: Lula, Fernández, Xi e os desafios do Sul Global

Iara Vidal

Outubro vermelho: Lula, Fernández, Xi e os desafios do Sul Global

A geopolítica internacional passa neste momento por profunda transformações Iara Vida

“Se me prenderem, eu viro herói. Se me matarem, viro mártir. E, se me deixarem solto, viro presidente de novo”.
Luiz Inácio Lula da Silva

A frase premonitória acima foi repetida por Luiz Inácio Lula da Silva, 77, em diversas ocasiões durante o processo de lawfare liderado pelo então juiz da fraudulenta Operação Lava Jato, Sergio Moro, que o levou a 580 dias de prisão em Curitiba (PR), entre 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019.

Todas as acusações fajutas foram canceladas pela Suprema Corte brasileira. O ex-presidente da República Federativa do Brasil, considerado o melhor de todos, não deve nada à Justiça. E, livre, cumpriu a profética declaração e foi eleito para um inédito terceiro mandato como chefe de Estado do maior país da América do Sul no dia 30 de outubro de 2022.

Essa data constará nos livros de História, em maiúsculo, como o primeiro dia para um futuro de paz, justiça social e desenvolvimento para a América Latina e Caribe e o Sul Global. Luiz Inácio Lula da Silva, duas vezes presidente da República Federativa do Brasil (2003-2006 e 2007-2010), venceu as eleições mais violentas desde a redemocratização do país, no final da década de 1980.

O povo brasileiro foi às urnas e disse basta ao projeto protofascista do autoritário Jair Messias Bolsonaro, que ficará na história, em minúsculo, como um ser ignóbil, desprezível e desumano que está muito aquém da magnitude do Brasil.

O mundo celebrou em festa a vitória da democracia brasileira. Uma profusão de chefes de Estado parabenizaram Lula. Estados Unidos e China, Reino Unido, Rússia e Ucrânia, Venezuela, Cuba, México, Colômbia, Paraguai, Guiana, Espanha, Portugal, União Europeia e muitos outros. Uma mensagem, em especial, é coberta de significados: a da Argentina.

Além de divulgar mensagem protocolar e telefonar para Lula, o presidente argentino, Alberto Fernández, esteve no Brasil na segunda-feira (31) para parabenizar pessoalmente Lula pela vitória. Esta foi a primeira vez que o mandatário da Argentina viajou ao Brasil desde que assumiu o cargo, em 2019. Ele nunca teve um encontro bilateral presencial com o não reeleito, com quem teve desentendimentos, principalmente em 2020, na pandemia.

A relação de Jair Bolsonaro e Fernández é marcada por hostilidades. Em 2019, Bolsonaro defendeu a reeleição do então presidente Mauricio Macri, de tendência liberal, que perdeu no primeiro turno para Fernández.

Bolsonaro chegou a dizer que, se Fernández fosse eleito, a Argentina se tornaria uma “nova Venezuela”. Ainda na campanha, o argentino respondeu: “Em termos políticos, eu não tenho nada a ver com Bolsonaro. Comemoro enormemente que fale mal de mim. É um racista, um misógino, um violento”.

Essa fase turbulenta está na reta final. O Brasil vai voltar a ser feliz e contagiar toda a Grande Pátria Latina. A partir do dia 1o de janeiro de 2023, as duas nações vão trilhar um longo caminho para a prosperidade dos povos brasileiro e argentino.

Na extensa pauta das possíveis parcerias entre as duas nações amigas e vizinhas está, por exemplo, a adesão da Argentina a uma versão estendida do Brics – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – que ganharia um plus no nome e o peso de constituir um espaço de cooperação do Sul Global.

Nesse contexto de cooperação entre os países em desenvolvimento, um outro gigante entra na equação: a República Popular da China. A potência asiática lançou em 2013, sob a liderança de Xi Jinping, que acaba de ser reconduzido para o terceiro mandato à frente do Partido Comunista da China (PCCh), que lidera o país, a Nova Rota da Seda: Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, da sigla em inglês).

Com a resposta das urnas brasileiras e a volta de Lula e da esquerda ao poder do gigante sul-americano há grandes expectativas para inaugurar uma nova etapa das relações sino-latinas a partir da integração entre Brasil-Argentina-China tanto pelo Brics quanto pela Nova Rota da Seda.

Na mensagem de felicitações pela vitória eleitoral enviada a Lula, o presidente chinês, Xi Jinping, disse que está disposto a trabalhar “de uma altura estratégica e de uma perspectiva de longo prazo”. O teor do recado sinaliza que haverá mudanças nas relações bilaterais e multilaterais sino-brasileiras.

As chances de transformações nas relações entre China e Brasil vão impactar espaços multilaterais além do Brics, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), o G-20 e outras plataformas para discussão de temas globais, entre eles mecanismos para o enfrentamento da emergência climática. Não foi por acaso que assim que foi eleito, Lula já foi convidado para a cúpula climática das Nações Unidas COP27 que será realizada entre 6 e 18 de novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito.

A possibilidade de remodelar a cooperação entre Brasil-Argentina-China pode nos levar a resultados concretos ganha-ganha e rumo a uma nova etapa do desenvolvimento nacional brasileiro, que tem enormes desafios. Entre eles, por exemplo, a urgência de investir na diversificação do modal logístico nacional. Neste momento, meia dúzia de apoiadores do presidente derrotado nas urnas fecham rodovias brasileiras, o que pode causar efeitos nefastos na economia nacional.

Neste “Outubro Vermelho”, com a confirmação de mais um mandato como secretário-geral do PCCh para Xi Jinping e a provável confirmação pela Assembleia Nacional Popular (APN, o legislativo chinês) para o terceiro termo como presidente do país em março de 2023 e a vitória de Lula no Brasil, há um otimismo palpável por todo o Sul Global. Vivemos um momento histórico em que as nações em desenvolvimento vão iniciar uma nova longa marcha rumo ao desenvolvimento. Tempos de grandes conquistas populares nos aguardam.

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